Agronegócio, indústria e café

O sucesso do agronegócio é cada vez mais reconhecido e tem tido impactos positivos na economia brasileira. Por exemplo, durante a recente recessão o setor foi o único, entre os mais importantes, que continuou crescendo e investindo. Entre 2014 e 2017, o PIB contraiu-se 6%, a indústria de transformação encolheu incríveis 12,1% e o setor de serviços perdeu 5%. Entretanto, o setor agrícola cresceu 11,7%!

A mensagem deste trabalho é que o agronegócio tem muito mais impacto na indústria do que geralmente se imagina. Além disso, como o segmento continuará crescendo (antes de tudo pela expansão da demanda externa por nossos produtos), essa importância tenderá a se elevar.

Finalmente, o progresso tecnológico do setor está levando ao desenvolvimento de novos produtos, com demanda relativamente elástica, inclusive pela possibilidade de substituição de bens oriundos do petróleo. Há muito valor sendo criado inclusive no setor de café.
O setor agropecuário tem hoje uma intensa ligação com o setor industrial, maior do que as pessoas imaginam, mesmo as mais informadas.

Isso é resultado, tanto do avanço na tecnologia de produção, colheita e armazenagem, quanto da crescente complexidade no processamento e geração de valor de produtos e matérias-primas, para os mercados interno e externo. Uma forma simples de observar essas relações é a que se segue.

Tomamos a lista de produtos que compõem a Pesquisa Industrial Mensal, utilizada para o cálculo da produção e organizada em 33 setores. São 805 produtos e, destes, destacam-se aqueles ligados diretamente ao agronegócio.

Os 189 produtos considerados representam quase 29% do total da pesquisa e mais de 37% do valor da produção da Pesquisa Industrial Anual (PIA) de 2015, número extremamente significativo e revelador de quanto a agricultura e a indústria estão interligadas.

Além disso, é preciso considerar que a cadeia do agronegócio tem uma demanda difusa, porém relevante em muitos segmentos industriais. Por exemplo, estima-se que um terço da produção de caminhões, carrocerias e reboques seja diretamente utilizado no transporte de produtos agrícolas, suas transformações e seus insumos.

Em geral, veremos maior integração entre a agricultura, indústria e os serviços em todos os segmentos.

Haverá um grande avanço tecnológico dentro das fazendas, resultado do barateamento dos sensores e da crescente utilização de técnicas digitais. É a chamada “agricultura de precisão”, o item mais relevante a ser considerado. Essa denominação abarca um conjunto de técnicas que estão em desenvolvimento na área de pesquisa e implantação em um número crescente de atividades e propriedades rurais.

Ao lado da maior produtividade, eficiência e redução de custos na agricultura, será imperioso continuar a integração com a indústria e o avanço tecnológico, visando a criação de valor por meio do desenvolvimento de novos produtos. Esses poderão ser tanto bens intermediários na cadeia de produção, como bens finais destinados às famílias.

Todos esses segmentos apontam para uma rota extremamente promissora: a criação de produtos que atendam aos anseios do consumidor (produzidos a partir de um bem renovável, positivo do ponto de vista do meio ambiente e que tenham características de biodegradabilidade) elaborados a partir de uma matéria-prima extremamente competitiva em termos globais. Esse é um dos melhores exemplos de que é possível desenvolver uma manufatura de sucesso a partir de vantagens comparativas naturais e alavancadas pela tecnologia já disponível ou em fase final de desenvolvimento.

Além desses segmentos, existe uma grande movimentação no aprimoramento de produtos já existentes. Por exemplo, a aplicação de nanopartículas e nanocápsulas em agroquímicos e fertilizantes permite um aumento na eficiência dos produtos pela liberação mais lenta, resultando em menor utilização de moléculas, menor ameaça ao meio ambiente e maior resultado nos seus objetivos. Da mesma forma, na área de equipamentos, há uma forte demanda por estações meteorológicas, equipamentos, sensores e sistemas etc.

Os consumidores, tanto no Brasil, quanto no resto do mundo, têm uma relação ambiciosa e complexa com os produtos de sua cesta de consumo e com as companhias que os produzem. Dá-se cada vez mais importância àqueles associados à saúde e ao bem-estar, que simplificam a vida, permitem uma conexão humana e possibilitam novas experiências. Além disso, as pessoas têm preocupações com o meio ambiente e a ideia da sustentabilidade. Elas esperam que as companhias falem honestamente e que a rotulagem dos diversos produtos seja absolutamente correta, expressando as qualidades acima mencionadas.

O caso do café é exemplar ¹

O café é um produto bastante tradicional, mas tem passado por uma revolução na cadeia de valor, que vai da lavoura a cafeteira. Antes de tudo, pela produção e comercialização de produtos de melhor qualidade, como o café verde de origem controlada, em que as características de uma dada região são destacadas, de forma similar ao que já acontece com produtos como vinhos, queijos e outros, especialmente no exterior.

A técnica de produção desses produtos precisa ser amigável com o meio ambiente e a rastreabilidade deve estar assegurada. Novos canais de venda foram criados e estão consolidados, como as cafeterias e as lojas especializadas. Novas empresas entram para disputar o setor. Finalmente, após relevantes inovações tecnológicas, as cápsulas representam a atual fronteira de consumo do produto.

Apenas para avaliar a amplitude dessa inovação, vale dizer que um quilo de café torrado e moído no varejo custa algo como R$ 20, enquanto que o superior é de R$ 33, o gourmet R$ 52 e o mesmo peso nas cápsulas custa R$ 290, e este benefício é distribuído na cadeia como um todo. O melhor é que esse ganho pode ser capturado por grupos de produtores: uma fábrica em Ribeirão Preto produz lotes pequenos para cafeicultores e cooperativas, que podem assim acessar diretamente consumidores urbanos. Ao mesmo tempo, Montes Claros (MG) já tem quatro fábricas de cápsulas de apenas dois fabricantes.

A inovação no setor tem sido intensa: novas formas de preparação, como cafés exóticos, resultantes das ações na fermentação do grão (que, na definição de Nathan Herszkowicz, transformaram um eventual erro na preparação do produto em criação de valor), café gelado Cold Blue (extraído pelo contato dos grãos com a água fria por 24 horas) e outros.

Estima-se que os cafés diferenciados, que recebem prêmios de 25% ou mais, já representem 40% da safra.

Para mim, a característica mais interessante dessa modernização, pelo menos no Brasil, é o seu caráter democrático, em que pesa a consolidação da indústria no plano global. Inovações e criação de valor estão acessíveis às pequenas e médias propriedades rurais, que hoje podem chegar até o consumidor com o café torrado e moído e até com cápsulas. Estão também acessíveis a profissionais das cidades, por meio de empreendimentos, industriais, comerciais e de serviços.

Existem produtos novos, que vão do óleo de café a preparações dermatológicas, de beleza e bem-estar. O crescimento na cadeia de valor é cada vez maior e vem sendo arejado por novas técnicas e empreendedores.

Analogamente, muitos outros produtos vivem ou viverão o que vem acontecendo com o café. É uma nova fronteira a ser mais explorada por esse e outros alimentos, aqui e lá fora, na próxima década. Assim, além do mercado interno, a pauta de exportações deverá ser mais sofisticada pela incorporação desses novos produtos.

Conclusões

Agronegócio e indústria têm muito que se beneficiar num contexto de maior abertura e progresso técnico. Um mundo está se abrindo na criação de valor, tanto no desenvolvimento de novos produtos quanto no redesenho e rejuvenescimento de setores maduros, como no caso do café.

As condições de custo e qualidade das matérias-primas permitem que, com a adequada tecnologia, sejam produzidos produtos muito competitivos globalmente.

As relações entre o agronegócio e a indústria são muito mais intensas, profundas e diversificadas do que se imagina. Elas deverão se aprofundar ainda mais.

Alavancar o progresso a partir de vantagens comparativas naturais e construídas parece uma rota -produtiva, cada vez mais longa e complexa.

¹Agradeço o auxílio de Nathan Herszkowicz na preparação desta seção.

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