ABIC entrevista: José Roberto Mendonça de Barros fala sobre o mercado agronegócio na pandemia

José Roberto Mendonça de Barros - MB Associados
20/04/2021
Publicado em

O Jornal do Café conversou com José Roberto Mendonça de Barros, consultor da MB Associados (Consultoria em Análise Macroeconômica), Articulista do O Estado de São Paulo, Colunista da Rádio BandNews FM e Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, de 1995 a 1998. Mendonça de Barros comentou sobre o mercado do agronegócio – em especial o agrocafé – o papel da indústria de café em um cenário tão frágil e sobre retomada econômica.

Após mais de um ano de pandemia, como o senhor enxerga o mercado do agronegócio, sobretudo o do agrocafé?

Em geral, O Brasil sofreu muito: a população, as empresas, os negócios, porém alguns segmentos se saíram muito bem e nestes o agronegócio e a indústria de café estão incluídos. Claro que foi muito tenso, exigiu demais das empresas e dos colaboradores, a construção de protocolos de forma rápida para manter as operações. Tudo foi feito com extrema capacidade, tanto que o agronegócio não parou sequer um instante. Na área de alimentação não faltou nada em lugar algum. Considerando o tamanho do Brasil, podemos considerar um feito. Nada deixou de ser exportado, produzido e distribuído no mercado interno.

No mercado internacional, o agronegócio brasileiro está se saindo muito bem. Existe uma demanda enorme global de todos os produtos, incluindo todos os tipos de café. O consumo internacional de café continua crescendo, mas os canais de comercialização por conta da pandemia, do distanciamento se alteraram. Isso vale para os mercados nacional e internacional. O consumo doméstico cresceu, os mercados e mercearias não fecharam e o e-commerce ganhou força. Já os bares, restaurantes e lanchonetes tiveram dificuldades de operar. A estimativa que a própria ABIC tem de um consumo de 21,2 milhões de sacas, um aumento de mais de 1%, um consumo muito positivo com essa mudança nos canais de comercialização. O mercado de café foi testado em um cenário de extrema dificuldade e conseguiu se adaptar.

Em fevereiro houve uma preocupação grande em relação à alta do dólar. O quanto ela poderia afetar o preço do café nas prateleiras. Qual a sua expectativa para os próximos meses?

Há uma frase famosa, Deus inventou o dólar para humilhar os economistas. É dificílimo de projetar. Olhando para fevereiro com o dólar muito alto, acima de R$ 5,50, realmente pressiona os preços da matéria-prima no ponto de vista da indústria. Para o produtor rural é bom, o saco de café foi de 500 para 700 reais. Para a indústria, a matéria-prima aumentou e, portanto, ela tem de pensar em estratégias de como absorver esses custos. O dólar alto pressiona os preços.

Vivemos grandes três tipos de incertezas. A parte das finanças públicas está em má situação, a segunda é a pandemia: ninguém sabe quanto ela ainda vai machucar o país. Dependemos da oferta de vacinas para acelerar a vacinação e o terceiro ponto é que o sistema político está muito tenso. Como esses aspectos não devem mudar muito por agora, a tendência é que o dólar siga alto. Duas situações podem acalmar o dólar, a oferta, a velocidade de vacinas aumentar e a imunização aumentar como está acontecendo nos EUA, Inglaterra e Israel. Sendo assim, cai o número de novos casos, internações, mortes e pode alcançar um grau de normalidade maior. Quando tivermos certeza que vacinaremos 1,5 milhão de pessoas por dia pode ser que um pedaço da pressão sobre o dólar diminua. O terceiro e segundos casos são mais complicados, a questão do orçamento está enrolada e o assunto política é ainda mais difícil. Projetar dólar é uma tragédia, entretanto dificilmente esse ano o dólar chega abaixo de R$ 5,00. Se não fossem essas três incertezas estaria abaixo de 5 reais.

Qual o papel da indústria de café nesse momento de uma economia tão frágil do país?

Há um papel relevante em vários aspectos. O café é um produto importante no bem-estar das pessoas. O nível de estresse nesse período em que vivemos aumentou e a hora do café é o momento que proporciona tranquilidade, uma pausa nas atividades de trabalho e apreciar algo prazeroso é importante. Segundo ponto, no meio de um ambiente recessivo poder contar com uma indústria que segue crescendo é algo relevante seja no emprego e na geração de renda. Terceiro item, como toda indústria de alimentação tem o desafio de atender as bruscas mudanças nos canais de comercialização e o setor tem feito bastante bem. Em todo conjunto é uma indústria bastante relevante e realço que é um produto que faz bem quer seja do ponto de vista de saúde, físico e especialmente na saúde mental.

O que o senhor percebeu de tendência de comportamento em um ano de pandemia no que diz respeito ao consumo de café?

Acentuou certa discrepância de qual consumidor estamos falando. Os mercados mais prime intensificaram o gosto e a busca por qualidade. Os equipamentos domésticos para preparo e cursos de café ganharam relevância. Nas faixas de A, B e C superior buscar a experiência de consumidor sobre qualidade e sabor se firmou. Mas, não podemos esquecer que a maior parte da população teve sua renda contraída. Esse público segue consumindo café, todavia leva em consideração o aspecto do custo.

É possível projetar o impacto da pandemia para o Brasil?

Não tem impacto pequeno. Tivemos a maior crise de muitos e muitos anos. A pandemia começou depois de uma experiência de recessão que começou em 2015. O Brasil já tinha entrado em uma experiência recessiva muito forte, a maior da história (2015, 2016). Nos anos seguintes, a recuperação foi modesta. Em seguida veio essa pancada. Não é só uma quedinha, perdas vieram para ficar. Empresas que diminuíram de tamanho, crianças um ano sem ir à escola, vai ser duro a recuperação, empresas que sumiram, sequelas de saúde que muitos vão ficar, é um custo para uma geração. Quando recuperar, vamos sair desse buraco, sem dúvida nenhuma, o mundo vai ser diferente porque vai ter um pedaço que sofreu muito, as tecnologias vão acelerar, a digitalização e as mudanças de hábito também, o trabalho vai ser diferente. Será um desafio gigante para o país, pessoas e empresas. Oportunidades imensas aparecerão e precisamos do olhar positivo.

Em uma retomada econômica, qual o papel do café, em especial, da indústria de café?

A indústria do café tem um papel importante no sentido de acelerar a contribuição na qualidade e no atendimento do consumidor e seguir buscando inovações tecnológicas. A sofisticação tecnológica faz o consumo do café não parar de crescer seja da cápsula, do próprio entendimento do que é o café ou dos equipamentos. Continuar sendo capaz de oferecer tipos de café para as categorias que estiverem se recuperando também é papel da indústria de café. O café é um produto relevante e cada vez mais ele representa a quebra do estresse, uma experiência pessoal e significativa, uma habilidade adicional de saber preparar um café bom.

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