Arabicas, Robustas e Perspectivas do Futuro

por Ensei Neto

Café e café.
Coffeas.
São dois mundos muito distintos quando são comparadas as duas espécies de café comercialmente mais importantes: arabica e canephora. A produção agrícola é sempre orientada pela demanda, de modo que quando ocorre uma escassez aguda de algum produto, geralmente, segue-se uma superoferta decorrente de um plantio massivo, motivado pelos altos preços.

Este binômio é clássico: altos preços andam de mãos dadas com a oferta escassa, bem como superoferta leva a preços deprimidos. É esse fenômeno que desencadeia o tão característico “gráfico de picos e vales” dos preços do café. No caso da indústria do café, seu suprimento é definido pelos fatores disponibilidade e preço.

Até meados dos anos 1990, a escolha normal para a composição de blends industriais recaía sobre os arabicas em razão de sua ampla oferta ante os canephoras. No entanto, as históricas geadas de 1994 que castigaram o Cinturão Brasileiro do Café, provocaram mudanças definitivas nesse cenário. A produção de café em Minas Gerais e São Paulo foi fortemente afetada, enquanto as lavouras do Paraná, praticamente dizimadas. Para se ter ideia do tamanho do estrago, neste que era então o Estado maior produtor de café do Brasil, restou pouco mais de 10% das lavouras de café!

Ao mesmo tempo, um novo Tigre Asiático começava a mostrar seus dentes e garras. Ainda era filhote, porém ganhou oportunidade fantástica com esse desastre climático no Brasil: o Vietnan. Com forte incentivo governamental, a cafeicultura daquele país experimentou impressionante crescimento, despertando o interesse de todas as empresas comerciais globais de café.

Historicamente, os grãos do Coffea canephora sempre tiveram lugar cativo entre as indústrias de café solúvel devido ao seu custo de aquisição mais baixo somado ao desempenho de processo superior ao do arabica. Como se sabe, o custo de aquisição da matéria prima neste segmento tem grande peso na formação de preços dos produtos. Desde o final dos anos 1970, algumas torrefações norte-americanas, principalmente as líderes de vendas, vinham fazendo experiências incluindo robustas nos blends para a maximização de lucros, o que determinou a queda de consumo. Foi justamente a rejeição pelos jovens da Geração X ao sabor amargo que passou a caracterizar os cafés daquele país que criou o embrião do movimento dos Cafés Especiais em 1982.

A partir do final dos anos 1990, quando o mundo passou a viver ciclos econômicos que alternavam exuberante prosperidade e virtuais estouros dessas bolhas, os países produtores de café, até então com baixo índice de desenvolvimento sócio econômico em sua franca maioria, começaram a experimentar transformações advindas da melhora da economia como um
todo.

A mais importante transformação observada foi, certamente, o da migração da população rural para os centros urbanos, movimento desencadeado principalmente pelos jovens que não pretendiam continuar com o mesmo estilo de vida rural de seus pais.

Em razão disso, uma silenciosa, melancólica e contundente mudança no modelo de produção de café dos países da América Central, assim como na Colômbia vem acontecendo. Alguns países continuam a apresentar quedas sistemáticas de volume produzido devido às dificuldades com controle de doenças e pragas, mas a da perda de continuidade da produção pelas famílias está se tornando muito significativa. A manutenção de sucessores só se dá se os filhos sentirem orgulho do que fazem seus pais, o que leva sistematicamente a produção agrícola ao modelo em que grandes grupos empresarias se tornam dominantes.

No continente africano, o suprimento de seus valorizados grãos de arabica é frequentemente prejudicado por guerras tribais, que interferem no escoamento das cargas de café até os portos. Enquanto isso, o Vietnan continuou fazendo o seu dever de casa, melhorando condições de infraestrutura e logística, seja pelo lado governamental, seja por
iniciativa das grandes empresas de comércio internacional. Com aquisição de tecnologias agrícolas, a produção de robustas vietnamitas ganha maior
expressão, ultrapassando a Colômbia como segundo maior produtor mundial de café no começo do Século XXI.

Observe no quadro abaixo como foi a produção das duas espécies:

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