Coluna Ensei Neto: "A soma da riqueza do mundo"

Cada país tem sua economia movida a setores que podem ser desde a produção agropecuária e o extrativismo mineral, o industrial ou o de serviços, que compreende o ativo setor de tecnologia da informação. Quanto mais esses setores gerarem negócios, maior é o índice chamado de PIB – Produto Interno Bruto, que os economistas resumem como sendo a soma da riqueza produzida num país.

Medir o PIB de um país e, principalmente, sua variação ao longo do tempo, dá uma clara demonstração de como a economia está se comportando, pois esse número reflete o aquecimento ou a pouca atividade das empresas.

Este índice é importante porque ele permite a comparação da robustez e da vibração econômica entre países, pois pode ser transformado numa moeda única, que hoje é o dólar americano.

Ao empregar um modelo com tal capacidade de métrica, é possível fazer comparação das atividades econômicas de todos os países, desde que seus números sejam confiáveis.

O café é a segunda bebida quente mais consumida no mundo, bem como é a segunda mercadoria mais representativa, atrás somente do petróleo.

O volume produzido em todo o mundo ronda os 160 milhões de sacas de 60 kg, num salto impressionante a partir do início dos anos 2.000.  Por outro lado, o consumo tem crescido consistentemente, muito em razão dos populosos países asiáticos terem aderido à moda de beber café. Como se sabe, o vigor de um mercado é medido pela renovação de seu público consumidor, que no caso do café é um dos mais emblemáticos.

O princípio ativo que move o mundo do café é a cafeína, molécula que representa atividade, atenção, foco e descontração. Pode-se dizer que é a droga legalizada mais consumida do mundo. Apesar de ser encontrada em mais de 60 espécies de plantas, é nas rubiáceas das espécies Coffea que ganhou projeção. Preparar uma xícara de café nada mais é do que se fazer, quimicamente falando, a extração de cafeína!

A bebida café concorre diretamente com o chá, o chocolate e as bebidas, digamos, turbinadas, porém, estima-se que é nessa forma original que a cafeína é mais consumida.

Sua ação no corpo humano tem sido muito estudada por décadas em diversos centros acadêmicos em todo o mundo, inclusive no Brasil. Foi, sem dúvida, o pesquisador Dr. Darcy Ribeiro que mais contribuiu para desmistificar diversas questões médicas sobre o café, auxiliando na construção da reputação como “bebida do bem”.

Dentre os principais efeitos, a cafeína aumenta a taxa metabólica, daí ser considerada termogênica. Seu efeito no centro de atenção e prazer do cérebro pode ser sentido em torno de 20 minutos após a ingestão.

Um dos aspectos mais interessantes da cafeína é o fato de seu consumo humano ser autorregulado, isto é, quando o nível de tolerância à essa molécula é atingido, perde-se a vontade de continuar consumindo. É por isso que depois de uma sessão de grande consumo de café, nosso corpo pede uma pausa para metabolizar a cafeína ingerida até sua excreção, num processo que varia de 4 a 6 horas em média.

Com o aumento de produção de robustas, principalmente a partir de 1995, ocorreu notável mudança na composição de blends em praticamente todo o mundo consumidor de café.

Anteriormente, eram combinações de grãos de diferentes países; atualmente, há uma forte presença de robustas, além da composição com grãos de arábicas de diferentes origens. A produção mundial de café nos dias de hoje tem uma proporção da ordem de 60% para grãos de arabica, enquanto 40% é de canephora.

Há uma diferença notável de concentração de cafeína nas duas principais espécies de Coffea:  em torno de 1,2% m/m nas variedades da arabica, enquanto na canephora, esse teor é de 2,3% m/m. Portanto, quanto maior é a participação de robustas ou do conilon, no caso do Brasil, nos blends,  maior será o teor de cafeína da bebida.

E aqui tem-se um paradoxo: adiciona-se mais robustas ou conilon no blend com o objetivo de baixar custos, porém o resultado pode ser um menor consumo em razão do fator “tolerância” à cafeína.

A produtividade das lavouras tem experimentado um expressivo aumento por conta de tecnologias e técnicas adotadas. O Brasil apresenta números impressionantes nesse quesito, pois saiu de uma média nacional de produtividade de café de 8 sacas/hectare no final dos anos 1980 para 32 sacas/hectare na safra 2018/2019. Enquanto isso, lavouras de conilon no Espírito Santo, graças às pesquisas desenvolvidas pelo INCAPER, a produtividade de mais de 120 sacas de 60kg por hectare se tornou realidade.

Assim, com um custo de produção mais baixo, pode-se esperar um aumento de participação de robustas e conilon na produção mundial ante um crescimento mais discreto dos arábicas.

Levando-se em consideração esses dados, fica claro que começa a se formar um descasamento entre o aumento de produção de café no mundo, com maior expectativa para os mais produtivos e cafeinados canephoras, em relação ao consumo, que apesar de todo o modismo, pode não acompanhar proporcionalmente.

Assim, certamente a melhor métrica para o mercado de café é o de se estimar seu desempenho pela quantidade de cafeína. É claro que o paradoxo de aumento de produção ante o de consumo irá continuar, podendo se estabelecer um cenário de excesso de cafeína num futuro próximo.

Se isso efetivamente vier a ocorrer, representaria o colapso do mercado de café, quando o seu teto seria hipoteticamente atingido.

O mercado como se conhece deve mudar para manter a perspectiva de crescimento. Ou seja, cafeterias e serviços de café como hoje existem tendem a ficar em segmento cada vez mais competitivo. Mesmo o café no varejo, das gôndolas de supermercado, saiu da zona de estagnação e está crescendo de forma incrível com a segmentação, porém, ainda dentro de variações de como se apresentar, em embalagens criativas e chamativas.

Além disso, outras perspectivas podem surgir. O mercado para a cafeína é muito maior, praticamente ilimitado. E tanto melhor se esse maravilhoso princípio ativo for obtido de processos naturais e bastante simples, como extrações domésticas!

Dessa forma, um novo mercado já está se formando, longe dos tradicionais espressos e filtrados.

Que tal um termogênico natural antes de iniciar um treino na academia ou uma corrida no parque? Não seria interessante aplicar o café e a cafeína em novos campos da cosmética dermatológica?

E a mais recente das combinações, que é feita com o CBD – Canabidiol, o princípio ativo terapêutico da Cannabis? Os resultados são excelentes em casos como no tratamento de dores crônicas, entre outros.

Pois é, em muito breve o mercado de café será muito maior e ilimitado.

E isso é muito bom!

Ensei Neto é consultor em Gestão Sensorial de Bebidas & Alimentos e é colunista convidado do Jornal do Café.

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