Café: em doses moderadas tem atuação preventiva em doenças do cérebro

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13/01/2019
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O café é um alimento saudável e tem benefícios comprovados, mas essa não é a visão que impera na área da saúde. Pelo contrário, programas de TV de grande alcance e meios impressos ou digitais ainda veiculam informações dando conta de que a bebida é nociva. “É preciso que a indústria de café fale sempre que produz um alimento saudável”, afirmou, no último dia de atividades do 25º Encafé, Rui Daniel Prediger, médico e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ao iniciar sua palestra a respeito dos impactos do café na saúde mental.

Segundo o especialista, existem prós e contras no consumo da bebida, mas a ingestão regular e dentro de quantidades apropriadas traz benefícios e, em diversos casos, tem ação preventiva. Por enquanto, todas as benesses conhecidas estão associadas à cafeína, a substância psicoativa mais popular no mundo. Ela, contudo, corresponde à apenas 1% da composição do café. “O que são os outros 99%”, questiona, indicando uma ampla possibilidade de estudo. Vale destacar que o grão de café contém pelo menos outros 56 componentes.

O pesquisador explica que o consumo moderado de cafeína, que garante efeitos saudáveis, é de três a cinco xícaras por dia, o equivalente a 400 mg/dia. A cafeína atua, sobretudo, na área frontal do cérebro. Durante sua ação, ela aumenta os níveis de dopamina e adrenalina no corpo. A absorção ocorre rapidamente, com pico sendo registrado 40 minutos após a ingestão. Já sua meia-vida, ou seja, seu tempo de duração no corpo, varia de três a quatro horas. Isto significa que a cada três horas, seu nível cai. Outros efeitos da cafeína no corpo são a queima de gordura, o aumento da diurese e o relaxamento muscular. O café também modula a função motora.

Por conta dessa atuação no cérebro, a cafeína vem sendo testada no tratamento de doenças relacionadas ao sistema nervoso central (insônia, depressão, ansiedade, Mal de Parkinson, Doença de Alzheimer). Estudos realizados nos Estados Unidos indicam que esse tipo de mal afeta um em cada quatro indivíduos naquele país. A questão principal, adverte o médico, é a dificuldade do tratamento e, sobretudo, seu diagnóstico. Se esses são problemas para os norte-americanos, tanto maior é no Brasil onde se verifica carência de dados precisos a respeito dessas patologias, sua área e população de abrangência.

Prediger destaca ainda que o custo dos tratamentos de moléstias que atacam o sistema nervoso central são muito altos. Pesquisa realizada em 2010 na União Europeia aponta gastos de 105,1 milhões de euros para os tratamentos das demências e outros 113,4 milhões de euros para os distúrbios de humor. “São cifras altíssimas, gastos muito altos”, comenta.

No Brasil, embora os estudos ainda sejam incipientes, os controles com fármacos apontam para alto consumo de medicamentos que atuam sobre o sistema nervoso central como os conhecidos rivotril e ritalina.

Independentemente do país, a questão da saúde mental aparece com sinal vermelho e a depressão é a grande doença do século XXI. É uma doença democrática, pois acomete qualquer pessoa, não importa classe social, país de origem, ainda que seja mais comum em mulheres do que em homens. “Nunca se ouviu falar em tantos casos no mundo, mas a realidade indica que se gasta muito pouco, no mundo inteiro, com pesquisa em doenças mentais”.

Estudos realizados pelo mundo apontam que o consumo de três a quatro xícaras de café por dia reduz o risco de depressão. Já a ingestão acima de oito xícaras produz um efeito contrário e poderia aumentar as taxas de suicídio. O resultado positivo tem uma explicação. Segundo Prediger, a depressão pode ser uma resposta inflamatória do cérebro e o café teria uma atuação anti-inflamatória nesse caso, daí os bons resultados.

Dr. Rui recebe o agradecimento das mãos de Ricardo Silveira

No caso das doenças degenerativas – Alzheimer e Parkinson são as mais conhecidas –, o médico destaca que 40% dos indivíduos acima de 80 anos têm fortes chances de desenvolver uma delas, mais uma vez com ênfase no sexo feminino e da terceira idade. “Esse dado tem um forte impacto econômico, pois demanda exames, médicos, remédios, cuidados”.

Sobre a doença de Alzheimer, o médico explica que é uma doença progressiva, que vai acometendo mais e mais áreas do cérebro. Há pesquisas fora do Brasil que associam o consumo de café a um menor declínio cognitivo em homens. Outra indica que o consumo de três xícaras diárias na idade adulta pode reduzir os riscos de desenvolver algum tipo de demência na velhice. “A cafeína promove a melhora da atenção e da memória, diminui a produção de betaamilóide, mas não é capaz de reverter os sintomas de pacientes com Alzheimer”, afirma o médico. Dessa forma, sabe-se que a cafeína tem uma atuação protetiva, ou seja, age na área da prevenção. Tentativas de usá-la após a manifestação desse tipo de demência, não tiveram efeito positivo.

Quanto ao Mal de Parkinson, Prediger explica que é uma doença motora, com diversos sintomas não motores, a exemplo da perda de olfato. “Os medicamentos melhoram a questão motora, mas após cinco anos de uso causam movimentos involuntários”. Há evidências nas pesquisas de que o consumo regular da cafeína reduz a incidência deste mal. O efeito protetor é maior nos homens do que nas mulheres. Isso porque o estrogênio, hormônio feminino, destrói a cafeína. Um dado curioso é que o Brasil registra taxas elevadas de incidência de Parkinson na zona rural como consequência do uso de agrotóxicos.

Outra doença em crescimento no mundo, cujos estudos indicam uma atuação positiva da cafeína, é o Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH), que acomete 5% das crianças e jovens de até 15 anos. O TDAH é um distúrbio neurológico crônico e caracteriza-se por um padrão persistente de hiperatividade, impulsividade e desatenção. Além de efeitos benéficos para doenças que atacam o cérebro, o consumo moderado e regular de café tem ação positiva para males como diabetes, câncer, asma e diversas dores.

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