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Mercado mundial segue em crescimento e aumento da produção é um desafio para o Brasil

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O diretor-executivo da Organização Internacional do Café (OIC), José Sette, abriu os trabalhos do 25º Encafé, que aconteceu entre 22 e 26 de novembro, no Hotel Iberostar Praia do Forte, Bahia. O brasileiro iniciou sua apresentação lembrando aos participantes a significativa evolução do mercado de café. Nos últimos 50 anos, considerando a comparação ano-safra 1965/1966 e 2015/2016, a produção mundial saltou de 80 milhões de sacas de 60 kg para 160 milhões e o consumo saiu de 60 milhões de sacas para 160 milhões. Enquanto este apresenta uma linha de crescimento mais estável, a da produção é errática, com altos e baixos significativos e que, ao longo da história, determinam o comportamento dos preços.

Nesse período, houve uma grande mudança na participação dos mercados consumidores. Enquanto em 1965, os tradicionais respondiam por 73% da demanda, em 2014, esse volume caiu para 54%, passando a ser ocupado pelos mercados exportadores (cuja demanda se amplia de 25% para 31%). Outra parte da demanda dos tradicionais migrou para os mercados emergentes, cujo volume comprado saiu de parcos 2% para 15% nessas cinco décadas. “A demanda mudou muito, em 1965 era muito concentrada nos mercados tradicionais. Os emergentes cresceram muito, fazem parte desse grupo os países produtores e países novos consumidores da Ásia. Estes respondem pelo maior crescimento, com uma média anual de consumo de 3,4%”, explica.

E o Brasil nesse cenário? O dirigente destaca que o país continua sendo o maior produtor mundial e apresenta um desempenho excelente. Nos últimos 20 anos, a produção dobrou, superando 50 milhões de sacas, com resultado advindo do aumento de 225% na produtividade (1.550 kg/ha). A área plantada diminuiu em 35% e soma 1,9 milhão de hectares. Para Sette, este êxito resulta de um ambiente favorável, que inclui instituições cafeeiras fortes, com trabalho sério e sistemático em torno da cafeicultura.

Mas o executivo da OIC trouxe para o Encafé uma questão: “Os atuais preços do café vão sustentar o aumento da produção no Brasil?”. Para imaginar qual o tamanho do esforço, ele apresentou três diferentes cenários, olhando para o consumo mundial em 2030. Num ambiente com crescimento de demanda de 1% ao ano (mais conservador), a necessidade é de mais 23 milhões de sacas no mercado. Mantidos os atuais 2% de crescimento, esse volume sobe para 49 milhões. Num cenário mais arrojado, com crescimento de 2,5% ao ano, a demanda sobe para 64 milhões de sacas.

Hoje, o Brasil tem 40% de sua produção voltada para o mercado interno. Para atender um crescimento médio de 2% ao ano na demanda até 2030, o país terá que produzir mais 20 milhões de sacas. A pergunta reforçada pelo representante da OIC é se o país consegue crescer nesses níveis. Sette lembra que o Brasil é um exemplo de país produtor, pois tem essa força do consumo interno, o segundo maior do mundo. A crise econômica foi sentida globalmente e houve uma retração de demanda. “O crescimento desacelerou, passando de uma média de 4,2% ao ano entre 2006/07 e 2010/11 para apenas 1,4% entre 2011/12 e 2015/16”, afirma.

Nesse sentido, ele destaca que a cafeicultura mundial enfrenta alguns desafios para que cresça de forma sustentável. A premissa básica é o bem-estar de todos os participantes da cadeia. “Desta forma, cabe ao produtor cumprir com os objetivos ambientais e sociais de longo prazo, conseguir preços que cubram os custos de produção e obter uma margem de lucro satisfatória”.

No que se refere à sustentabilidade econômica, o diretor-executivo da OIC lembra que ela é composta por renda adequada para os cafeicultores, maior produtividade, acesso ao mercado e transparência, acesso a financiamento, produção de produtos de qualidade e com rastreabilidade e diversificação de atividades para gerar receita.

Ele destaca ainda a importância da sustentabilidade ambiental com a adoção de boas práticas agrícolas, incluindo manejo e fertilidade do solo, combate integrado de pragas e doenças, manuseio adequado dos recursos hídricos, controle dos detritos, proteção do terreno (florestal), conservação da biodiversidade e introdução de práticas com vistas à adaptação e mitigação do impacto das mudanças climáticas.

No que tange à sustentabilidade social, Sette listou a importância de melhores condições de vida para os cafeicultores, a presença de organizações eficazes de cafeicultores e impacto positivo em suas comunidades, condições de trabalho adequadas, melhoramento das aptidões dos cafeicultores, práticas agrícolas saudáveis, segurança alimentar e, por fim, igualdade de gênero na cafeicultura.

Nesse sentido, o dirigente apresentou dados praticamente inéditos ao público. Segundo estudo da OIC, no mundo, as mulheres respondem por 20% a 50% da força de trabalho agrícola e representam de 3% a 20% dos proprietários de terras. Mesmo com essa presença, há acesso limitado das mulheres aos fatores de produção. Como resultado, constatou-se níveis de produtividade frequentemente mais baixos em famílias chefiadas por mulheres.

De acordo com o estudo, a minimização da diferença entre gêneros poderia aumentar a produção em 20% a 30% e sua redução poderia ser alcançada por ações como programas de extensão que cheguem às mulheres, melhoria do acesso a financiamento (com alfabetização financeira e treinamento de funcionários responsáveis por empréstimos) e o fortalecimento do papel das mulheres na comercialização de produtos de base, entre outras ações. “Há ganhos significativos com a igualdade”, destacou.

A Organização Internacional do Café é composta por 78 países, sendo 44 produtores e responsáveis por 98% da produção mundial e tem como metas principais disponibilizar dados e análises de categoria mundial, servir de foro para o diálogo dentro do setor público e com o setor privado/sociedade civil e estabelecer parcerias para promoção e projetos relacionados ao café.

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