Silas Brasileiro, presidente do CNC

Jornal do Café entrevista Silas Brasileiro, presidente do CNC – Conselho Nacional do Café

No mês em que a ABIC celebra os 30 anos do Selo de Pureza, o Jornal do Café ouviu o presidente do Conselho Nacional do Café, Silas Brasileiro, sobre o momento atual do mercado e da indústria, de produção, consumo e perspectivas do setor no Brasil, além da importância de certificações e autenticações como o Selo de Pureza ABIC.

JC – As recentes geadas podem prejudicar a próxima safra? O que podemos esperar com relação à qualidade da safra? 

Silas Brasileiro – As geadas certamente impactarão a safra 2020 de café no Brasil, agravando um cenário que já é preocupante em função dos baixos preços praticados pelo mercado, o que reduz os tratos culturais nos cafezais e diminuiu o potencial de produção. Esses dois fatores, certamente, reduzirão o volume a ser colhido pelo Brasil no ano que vem. No tocante à qualidade, ainda é precoce para projetarmos, haja vista que necessitamos aguardar as floradas e o “vingamento” das flores em chumbinho e, posteriormente, em frutos, o que será possível entre janeiro e fevereiro.

JC – O aumento do dólar, e mesmo suas oscilações, preocupam o setor produtivo?  Quais mecanismos para proteger o produtor? 

Silas Brasileiro – As oscilações cambiais interferem diretamente no mercado das softs commodities, entre as quais o café. É válido lembrar que essas flutuações também podem gerar cenários positivos, portanto é importante o produtor estar atento e capacitado para aproveitar as oportunidades que o mercado ofereça com picos de preço.

Nossas cooperativas de café oferecem diversas ferramentas de mercado aos produtores, como a possibilidade de operações em mercados futuros, financiamentos através de diversas linhas, incluindo as do Funcafé, e, em especial, o barter, através do qual os produtores têm o próprio café como moeda e podem trocar por insumos, defensivos e maquinários.

JC – Quais as principais preocupações e problemas que afetam os produtores de café no Brasil?

Silas Brasileiro – Os baixos preços que permanecem há alguns anos tem impactado diretamente a renda dos produtores, que consequentemente, reduzem os tratos culturais e acabam por ocasionar uma safra menor, também com certo impacto na qualidade do café. Como toda atividade agro, o café é uma indústria a céu aberto e sempre estará sujeito às adversidades climáticas, que, nesta safra, por exemplo, gerou impacto no rendimento e na qualidade, com menos chuva na época do enchimento dos grãos e com ocorrência de precipitações em plena colheita. Também devemos considerar o impacto das geadas em parte do cinturão, que implicará redução da colheita 2020 nas regiões afetadas. Apesar disso, os produtores mantêm seu trabalho focado na questão da sustentabilidade.

JC – As linhas de crédito atendem as demandas?

Silas Brasileiro – Definitivamente, sim! O nosso banco da cafeicultura, o Funcafé, dispõe de aproximadamente R$ 6 bilhões, que são divididos entre suas linhas de financiamento voltadas para toda a cadeia produtiva, envolvendo produtor, exportador e industriais. Não obstante, a cafeicultura brasileira é a mais sustentável e competitiva do mundo, preservando ecossistemas e as regiões onde é cultivada, gerando milhões de empregos e renda às famílias de trabalhadores na atividade e elevando seus níveis de produção consecutivamente por meio dos investimentos empregados em pesquisa e tecnologia e em assistência técnica e extensão rural. Basta lembrar que saímos de uma produtividade de 8 sacas para 33 sacas nas últimas duas décadas e que representamos cerca de 35% do mercado mundial, considerando que consumimos, internamente, 40% de nossa safra. Mais que vanguarda, o Brasil é exemplo em café!

JC – Uma das conclusões do Fórum Mundial de Produtores de Café foi a necessidade de aumento de consumo nos países produtores. Na prática, como atingir esse objetivo? 

Silas Brasileiro – Somos cientes da realidade financeira em algumas nações produtoras, que enfrentam dificuldades até mesmo para a alimentação básica. Entretanto, é necessário atrelar possíveis elevações de produção ao fomento do consumo, caso contrário veremos um excedente de oferta significativo e o consequente aviltamento dos preços já em níveis reduzidos, o que pioraria ainda mais o cenários desses países. O Fórum recomendou não apenas focar os produtores, mas também os mercados emergentes, como a China, que vem abrindo suas portas ao café e possui um potencial enorme de crescimento. Em suma, o que precisamos é vincular o aumento da oferta ao do consumo, senão a cafeicultura dificilmente viverá um cenário de rentabilidade nos próximos anos, o que reduziria a oferta e, futuramente, inverteria o cenário, com o café cotado a níveis muito elevados e impactando diretamente a renda das indústrias.

JC – O Selo de Pureza da ABIC completa 30 anos do seu lançamento agora no mês de agosto. Como o senhor avalia essa ação da entidade? Qual a importância para a cadeia produtiva do Selo de Pureza e das demais certificações da ABIC? 

Silas Brasileiro – O Selo de Pureza da ABIC foi um marco que, além de incentivar a melhoria da qualidade do produto, levou essa informação diretamente ao produtor, acabando com a mística de que o brasileiro não bebia apenas café, mas milho, pau, grãos, cascas e etc. O investimento feito pela Associação na coleta para análise para atestar a qualidadee todo o trabalho de certificação desenvolvido são de vital importância para toda a cadeia, pois evidenciam nosso profissionalismo desde as pesquisas e a seleção das variedades, os tratos culturais e trabalhos de colheita e pós-colheita, focados na sustentabilidade, que chegam aos consumidores através de nossas indústrias, com a chancela dos selos e certificações da ABIC. A cadeia é interligada e complementar, com nós, do lado da produção, sempre apoiando iniciativas e trabalhos que externem cada vez mais a qualidade do que fazemos e implicando e melhores e mais saudáveis cafés ao consumidor final.

JC – Vamos falar um pouco de sua trajetória no café – Há quantos anos o senhor trabalha com café? Como começou? Como são seus hábitos de consumo? Prepara seu próprio café? Gostaria de deixar alguma mensagem ao torrefador brasileiro?

Silas Brasileiro – Minha história com café é desde sempre. Desde minha origem, em meio às lavouras, e diante do meu histórico de empresário de diversos setores e de deputado federal, o café sempre me acompanhou. O amor pela cultura me tornou assíduo defensor do produto e de nossos produtores durante minha vida.

Consumo todos os tipos de café, da praticidade do solúvel quando a agenda está mais apertada, passando pelo filtrado/coado em casa até os expressos no escritório, nas reuniões e viagens a trabalho, quando também é possível experimentar outras bebidas a base de café.

Aos nossos amigos torrefadores, deixo meus parabéns pelo trabalho e pela evolução que empregam rotineiramente em seus afazeres, potencializando o produto final dos cafeicultores. Internamente, vocês são a ponta da lança ao consumidor final e o trabalho de qualidade que têm empregado permite com que nosso consumo permaneça em ritmo constante de crescimento e que os brasileiros consumam cafés cada vez mais sustentáveis, saudáveis e de excelência.

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