Consumo de café no mundo segue em alta

Taxas de crescimento, porém, são mais lentas. Por Inês Figueiró

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O consumo de café no mundo segue uma linha ascendente e deverá atingir o total de 184 milhões de sacas em 2024. O ritmo desse crescimento, contudo, vem desacelerando. Entre os anos de 2001 e 2006, o consumo médio anual teve aumento de 2,4%, batendo um pico de 2,7% entre 2007 e 2011 e caindo para 1,9% entre 2012 e 2018. Os dados foram apresentados por Guilherme Morya, analista sênior do Rabobank, durante o 26º Encafé.

“Essa taxa próxima aos 2% é considerada atrativa e o consumo vem aumentando entre 3 milhões e 3,5 milhões de sacas ao ano. Esse aumento ocorre não só em novos mercados, mas também em mercados mais maduros”, explica. Dados do Rabobank indicam consumo entre 166 milhões e 167 milhões de sacas para este ano.

Os estudos apresentados pelo analista também apontam que, há uma década, o valor do mercado cresce mais do que o volume comercializado e isso é fruto da agregação de valor que o produto recebeu com a introdução de novas técnicas e novas maneiras de consumir o café: em cafeterias, em cápsulas, etc.

Os mercados não-tradicionais vêm liderando o crescimento da demanda. Um exemplo disso é o acréscimo de 7,3 milhões de sacas entre 2012 e 2017 pelos países consumidores da Ásia, contra 1,8 milhão dos países da Europa Ocidental. O crescimento médio anual do consumo nos países asiáticos é de 5,7% no período mencionado acima. Mas as maiores taxas de crescimento estão no Oriente Médio, principalmente com o consumo de solúvel. A alta por lá chega a 7%. Morya destaca que, na América do Sul, o crescimento é influenciado em grande parte pelo Brasil e que a Colômbia está começando a trabalhar para alavancar o mercado consumidor.

Na sua apresentação, o analista do Rabobank destacou que há uma expectativa de crescimento nos segmentos de café em cápsula, solúvel, chá e café torrado e moído. “Todos eles têm em comum o oferecimento ao consumidor de praticidade e novidade, sobretudo a cápsula”, afirma, explicando que o solúvel tem crescimento influenciado pelo mercado asiático. São consumidores tradicionais de chá que começam a apreciar o café. Atentas a esse movimento, as grandes empresas do setor respondem. No início deste ano, a Nestlé anunciou a intenção de reanimar o consumo de café solúvel.

Investimentos também vêm sendo feitos no mercado de cápsulas – o que mais cresce. Além do anúncio da Nestlé de aportes em sua fábrica de cápsulas em Montes Claros (MG), houve também o da Três Corações no mesmo sentido. Já a Melitta e Illycaffeè JAB anunciaram ingresso no setor. As duas últimas firmaram parceria para entrar no mercado de cápsulas.

Consumo na Ásia

Na Ásia, o consumo de café cresceu 10,4% e deve chegar a 28,2 milhões de sacas em 2025. Um aumento de quase 10 milhões de sacas em relação aos 19,7 milhões de 2015. A China é o principal responsável por essa alta. Dados demográficos do país indicam que em 2015 o índice de urbanização beirava os 50%. A projeção é de que em 2025 chegue a 70%. Quem mora na zona rural tem renda percapita de US$ 1.600/ano. Já na cidade esse valor sobe para US$ 4.600. Assim, a perspectiva é de que o consumo deva crescer com esse deslocamento. “Irão consumir mais e é uma questão de tempo o aumento da demanda por café de mais qualidade”, diz Morya, lembrando que as cafeterias – Starbucks e a chinesa Luckin Coffee – fazem muito sucesso, esta última num processo bem agressivo de crescimento. “É uma rede que entende o comportamento dos chineses”, destaca. Na Ásia, também as Filipinas se destacam no desenvolvimento do consumo.

Mudanças no Cenário do Café

A exemplo do que aconteceu com o mercado de cerveja, no qual as Top-15 marcas de cervejas (fora da China) realizaram as principais aquisições ou foram compradas nos últimos 10 anos, há espaço para esse tipo de comportamento no mercado global do café. O analista sênior do Rabobank explica que existem muitos players que detém de 1% a 3% do market share do café. Esse cenário cria um ambiente de “comprar ou ser comprado”, o que deve gerar uma mudança grande nos próximos dez anos. “Será um mercado desafiador para aqueles que ficarem parados”, disse, destacando que entre 2012 e 2017 houve muitas fusões e aquisições. “Essa é uma tendência”.

Ele destaca também o fato de o setor de café estar invadindo o de bebidas. Recentemente, a Coca-Cola adquiriu uma rede britânica de cafeterias. Outra tendência que está sendo enxergada para o café é o da “blurred lines”, o que em português pode ser traduzido como linhas esfumaçadas. “Esta é uma nova realidade em que o café entra com outras bebidas: café proteinado e iced coffee são exemplos do uso do ingrediente café junto a bebidas diversas, mas destacando suas características de saúde”.

Mercado

Na avaliação de Guilherme Morya, o mercado consumidor de café crescerá a boas taxas como resultado das inovações que vem apresentando e também da indústria que segue investindo em produtos novos. Junto ao crescimento do consumo está a alta da oferta. “A última safra não é tão negativa. O Brasil conseguiu se recuperar de um cenário de exportação com volumes bem abaixo do que vinha sendo exportado e até outubro embarcou 27, 1 milhões de sacas. Neste ano, a exportação deverá ser ainda maior”, destaca.

Dados do Rabobank apontam para a colheita de 57 milhões de sacas na safra 2018/2019. Já a temporada seguinte – 2019/2020 – não deverá ser tão baixa apesar da bianualidade. O número preliminar apresentado varia entre 55 a 56 milhões de sacas de 60 quilos. “O aumento na produção de conilon compensará, em parte, a redução do arábica”. O analista destaca que os resultados da safra dependerão de condições climáticas favoráveis e dos impactos do fenômeno El Niño.

Para o próximo ano safra (2019/2020), a previsão do Rabobank é de déficit 1,2 milhão de sacas de 60 quilos na oferta mundial de café. Há expectativa de um superávit de 5,5 milhões de sacas na oferta para esta safra (2018/19). Morya destaca que os principais produtores de café no mundo registrarão aumento na produção em 2018/2019. Esse comportamento serve tanto para o arábica como para o robusta. A expectativa de aumento de oferta leva ao raciocínio básico da lei de mercado: preços menores.

Para os próximos meses, a expectativa de preços é de 1,15 a 1,20 centavos de dólar por libra peso para o arábica e para o robusta, US$ 1.600 a tonelada. O fenômeno El Niño, contudo, poderá acarretar mudanças nesses valores.

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